ClickBus aposta em IA, dados e novos mercados para redesenhar a viagem de ônibus no Brasil

ClickBus aposta em IA, dados e novos mercados para redesenhar a viagem de ônibus no Brasil

Em entrevista ao Radar Mobilidade, executivos da ClickBus detalham como inteligência artificial, dados e personalização entram na estratégia da companhia em um momento de transformação regulatória do transporte rodoviário.

O transporte rodoviário brasileiro começa a atravessar uma transformação que vai além da digitalização da passagem. Durante a segunda edição do ClickBus Academy, no dia 15 de setembro de 2026, realizada em São Paulo, regulação, inteligência artificial, novos hábitos de consumo e expansão da distribuição apareceram como partes de uma mesma mudança: entender melhor o passageiro e usar tecnologia para conectar demanda e oferta.

Um dos números que dimensionam esse cenário veio da discussão regulatória. Juliano Samôr, superintendente da ANTT, falou sobre um universo de aproximadamente 47 mil mercados, dos quais cerca de 38 mil seriam novos. A perspectiva amplia oportunidades para as empresas, mas também coloca no centro do debate segurança jurídica, concorrência e sustentabilidade das operações.

É nesse ambiente que a ClickBus pretende ampliar seu papel. Em entrevista exclusiva ao Radar Mobilidade, o CEO Fernando Prado explicou que a companhia não quer restringir sua atuação à intermediação da compra de passagens. A estratégia envolve tecnologia, dados, distribuição e ferramentas destinadas também às empresas rodoviárias.

A base construída ao longo dos anos permite analisar não apenas as vendas concluídas, mas também o comportamento de quem pesquisa uma viagem. Saber quais destinos são procurados, quando o passageiro pretende viajar e onde existe procura sem uma oferta correspondente pode transformar dados digitais em informação para decisões comerciais.

Na conversa com o Radar, Prado destacou justamente a intenção de transformar essa capacidade tecnológica em valor para todo o ecossistema. Em síntese, a ClickBus quer avançar de um canal de vendas para uma plataforma capaz de ajudar viações a vender, distribuir e compreender melhor seus passageiros.

Essa mudança já aparece na escala apresentada no evento: são mais de 300 viações parceiras, mais de 250 mil rotas disponíveis e mais de 250 grupos parceiros de distribuição, segundo dados divulgados pela companhia.

A inteligência artificial deverá acelerar esse movimento. A ClickBus informou investimentos de aproximadamente R$ 40 milhões em IA, infraestrutura e ferramentas no período apresentado e mostrou aplicações que vão da pesquisa conversacional ao alerta de preços.

Na prática, a mudança está na forma de perguntar. Em vez de simplesmente buscar uma passagem entre duas cidades, o consumidor pode explicar que viajará com crianças, estabelecer orçamento, pedir determinado nível de conforto ou informar uma necessidade específica. A plataforma passa a interpretar contexto, e não somente origem, destino e data.

Essa transformação foi um dos temas da entrevista do Radar Mobilidade com Michelle Xavier, diretora de Marketing & Growth da ClickBus. Para a executiva, IA e dados ampliam a capacidade de compreender o consumidor e tornam possível trabalhar uma comunicação muito mais relacionada ao contexto de cada viagem.

A discussão é relevante porque modifica o próprio papel do marketing. O produto deixa de ser apenas a passagem. A necessidade que levou aquela pessoa a viajar passa a fazer parte da construção da oferta.

Na entrevista, Michelle relacionou esse avanço à possibilidade de personalização em escala. Quanto mais informações sobre comportamento e intenção estiverem disponíveis, maior a capacidade de entregar uma experiência relevante para diferentes perfis de passageiros.

Isso não significa, entretanto, que tecnologia substitua a construção de marca. Com buscadores e assistentes de IA assumindo participação crescente na descoberta e no planejamento das viagens, a ClickBus também precisa permanecer relevante nos novos pontos de contato com o consumidor. O desafio passa a ser usar a inteligência artificial para facilitar a jornada sem perder o relacionamento e a confiança construídos com o passageiro.

A apresentação do Google durante o Academy reforçou essa mudança. As pesquisas estão ficando mais conversacionais e detalhadas. A IA pode entregar respostas mais rapidamente, mas o consumidor tende a aproveitar essa facilidade para fazer mais perguntas, comparar mais variáveis e aprofundar sua decisão.

Esse comportamento ajuda a explicar por que a ClickBus também investe em canais como WhatsApp e soluções conversacionais. Segundo dados apresentados pela empresa, 14% das compras já possuem algum tipo de interação com sua tecnologia conversacional, seja durante a aquisição ou no pós-compra.

Ao mesmo tempo, a transformação digital encontra desafios fora das telas. Dados apresentados pelo SEST SENAT indicaram forte escassez de profissionais no setor. No transporte rodoviário interestadual, 84% dos empresários consultados apontaram motoristas como a principal categoria profissional em falta. Formação de jovens, renovação profissional e maior participação feminina também apareceram entre os temas necessários para sustentar o crescimento do transporte.

O ClickBus Academy mostrou, assim, um setor em que diferentes transformações começam a acontecer simultaneamente. A ANTT prepara um ambiente com potencial para milhares de novos mercados; empresas acumulam dados capazes de revelar demandas ainda não atendidas; e a IA começa a interferir na maneira como o passageiro descobre, compara e compra uma viagem.

As entrevistas de Fernando Prado e Michelle Xavier ajudam a revelar o movimento por trás desses números: a ClickBus quer participar de uma etapa cada vez maior da jornada do passageiro, antes, durante e depois da compra.

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Tito Ferreira

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